Correndo atrás do rabo

Por Ronaldo Bias Ferreira Jr.  

Estes dias um amigo me disse: “Partiu ‘Projeto Verão’!”. “Que legal”, pensei. E perguntei: “Que negócio é esse?”. Ele me explicou que era uma mistura de contratar e frequentar uma academia, junto com o penoso ato de fechar a boca durante todo o último trimestre do ano. Tudo pra desfilar orgulhoso no verão com um “corpinho sarado”. 

Isso me lembrou o quanto, de certa maneira, agimos assim o ano todo. Quantos de nós trabalham de 12 a 14 horas, dividindo o tempo entre o fardo do trabalho e alívio do final de semana. Quantos de nós ainda esperam o período de férias para poder curtir a vida. 

Esse comportamento revela a dificuldade que temos em lidar previamente com mudanças pessoais. Evitamos pensar muito sobre essas coisas, justamente para não termos que nos esforçar mudando hábitos. Às vezes procrastinamos tanto algumas decisões que até parece que gostamos de ficar “correndo atrás do próprio rabo”. 

A questão é que esse comportamento atrapalha muito a nossa vida. Quantas histórias não conhecemos de gente que trabalhou dos 15 aos 60 anos para acumular o máximo de dinheiro possível para, depois de velho, estressado, sem saúde e sem família, acabar não conseguindo usufruir da “recompensa”? Quantas pessoas, chefes de família, conhecemos e que, infelizmente, não conseguiram viajar com suas companheiras ou companheiros, porque elas ou eles não estavam mais lá; quantos pais não conseguiram acompanhar o crescimento de seus filhos porque estavam ausentes, lutando pelos recursos que pareciam prioritários para a sobrevivência deles? 

Quantos desencontros causamos por falta de tempo. E quanto deixamos de evoluir ou ir além por preguiça de ressignificar as coisas. E, por fim, quanto deixamos de curtir a vida por medo de mudar. 

A pandemia nos revelou que somos muito bons em nos adaptar às mudanças. Mostrou que é possível ter vida pessoal no trabalho e trabalhar numa boa a partir de nossas casas. Ela nos lembrou de que, como adultos, gostamos de responsabilidade e autonomia. Tanto é verdade que hoje, no mundo corporativo, é difícil conhecer alguém que queira voltar a trabalhar das 9h às 18h em um lugar específico, sem ter a liberdade de tomar decisões em relação ao espaço e ao tempo. 

Claro que não é fácil desligar o automático e resistir a olhar nossas redes sociais pela vigésima vez no dia, mas precisamos investir mais tempo em nos conhecermos melhor, saber mais sobre nossas crenças e valores, e, assim, passar a agir em sintonia com esses sentimentos. Passar a dizer sim para aquilo que de fato acreditamos e concordamos, e a dizer não para tudo aquilo que não concordamos e não queremos mais para nossas vidas. 

Observamos que as gerações X e Y (pessoas como eu, nascidas entre os anos 1965 e 2000) não conseguiram resolver bem esses conflitos, mas, em compensação, parece que conseguimos deixar filhos mais preparados para lidar com essas questões. 

As gerações mais jovens podem dar conta desses desafios justamente porque são mais leves e menos comprometidas com coisas materiais ou sentimentos de segurança que tanto nos seduzem. Os jovens hoje em dia buscam coisas mais simples e possíveis para suas vidas. Coisas que necessitam ou desejam, mas que, acima de tudo, podem ter e usar já. 

Por isso, é tão saudável a conexão entre as gerações. Essa troca diversa entre pessoas de diferentes idades e experiências é um convite para repensar escolhas e criar novas sinapses e soluções para velhos hábitos. 

Então, ao contrário de acelerar esforços para termos corpos sarados, deveríamos pensar em educação alimentar e equilíbrio para gozar de uma vida saudável e prazerosa o ano todo. Deveríamos focar esforços no resultado do trabalho, para resolver rapidamente nossos desafios profissionais, e assim termos mais tempo para viver, conviver e viajar com os amigos já no próximo final de semana. Deveríamos repensar nossa expectativa de futuro feliz, para que ele chegue mais rápido em parcelas reais e possíveis, que possam ser usufruídas na companhia saudável das pessoas que amamos. 

Precisamos de mais coerência em nossas decisões do dia a dia para que possamos viver com menos ansiedade e depressão. As pesquisas mostram que passamos mais de três horas por dia nas redes sociais. Bora sair um pouco delas, refletir sobre nossos desejos reais e tomar decisões que criem semanas mais produtivas e melhores. Coisas simples, que qualquer um pode repensar e fazer diferente, a partir de agora. 

No mundo corporativo, temos que aproveitar essas janelas de humanidade que as empresas estão abrindo, para nos posicionarmos explicitando nossos desejos e necessidades nestes novos tempos. E assim, vamos criar uma cultura mais conectada às pessoas, que inclua, provoque e motive a todos, inclusive aquelas pessoas que ainda preferem viver fugindo da vida. 

*Ronaldo Bias Ferreira Jr. é sócio-diretor da um.a Diversidade Criativa (https://www.linkedin.com/in/ronaldobias/  https://linktr.ee/Ronaldobias). Formado em Comunicação Social e Marketing, é empresário, empreendedor e fundador do programa de capacitação MDI Mestre Diversidade Inclusiva, em parceria com a Pearson Educacional. É membro permanente do conselho da Ampro – Associação Brasileira de Live Marketing, colunista da Promoview e Portal Eventos e atua ampliando a voz de protagonistas, como um forte aliado da diversidade, equidade e inclusão no mundo corporativo.  

Sobre a um.a   

Fundada em 1996, a um.a #diversidadecriativa está entre as mais estruturadas agências de live marketing do Brasil, especializada em eventos, incentivos e trade. Entre seus principais clientes, estão Anbima, Atento, Bristol, B3, Citi, Carrefour, Corteva, Cielo, Mapfre, Motorola, Nextel, Pandora, Sanofi, Sumup, Tigre, Via Varejo e Visa, entre outras. Ao longo de sua história, ganhou mais de 40 “jacarés” do Prêmio Caio, um dos mais importantes da área de eventos.   

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