Por Maurício Juvenal
Há uma frase que se repete em praticamente toda eleição brasileira: “pesquisa não ganha eleição”. É verdade. Nunca ganhou e nunca pretendeu ganhar. O problema é que, muitas vezes, essa constatação vem acompanhada de outra, completamente equivocada dando conta de que se uma pesquisa não acerta integralmente o resultado final das urnas, ela não serve para nada. Nada poderia estar mais distante da realidade.
Pesquisa de opinião jamais foi exercício de futurologia. Não existe instituto sério que prometa adivinhar o futuro. A finalidade de uma pesquisa é muito mais modesta e, justamente por isso, muito mais importante. Ela procura responder a uma única pergunta que é sobre como pensa a sociedade eleitora no momento em que os dados são coletados? Trata-se de um retrato estatístico, construído a partir de métodos científicos, capaz de revelar tendências, percepções, expectativas e intenções existentes naquele exato instante e em relação aos cenários que são testados.
Assim como um termômetro não produz a febre, apenas a mede, a pesquisa não cria opiniões nem fabrica votos. Ela observa, registra e organiza, segundo critérios científicos, aquilo que já existe na sociedade. Confundir pesquisa com previsão absoluta do resultado eleitoral equivale a responsabilizar a meteorologia por toda mudança inesperada do clima. A democracia é dinâmica. Campanhas mudam, debates alteram percepções, fatos novos surgem, alianças se formam e eleitores mudam de ideia. Nada disso invalida o retrato captado em determinado momento.
Infelizmente, parte do debate público brasileiro passou a tratar pesquisas de opinião como instrumentos de disputa política, quando, na realidade, elas são instrumentos de informação. O alvo deixa de ser a metodologia e passa a ser o resultado. Quando os números agradam, a pesquisa é celebrada. Quando desagradam, torna-se automaticamente “fraudulenta”, “comprada” ou “manipulada”. A ciência cede lugar à conveniência política.
É evidente que existem pesquisas boas e pesquisas ruins. Como em qualquer atividade técnica, há profissionais qualificados e profissionais despreparados. Mas também é evidente que existem institutos que há décadas atuam com rigor metodológico, possuem registro regular, contam com estatísticos legalmente habilitados, seguem as normas da Justiça Eleitoral, submetem previamente seus questionários ao Sistema PesqEle e permanecem sujeitos à fiscalização permanente, inclusive com possibilidade de apresentação dos bancos de dados, questionários, planos amostrais e demais documentos sempre que solicitado, formal ou informalmente.
É justamente por isso que a crítica séria deve concentrar-se naquilo que realmente importa que é a qualidade técnica. Amostragem adequada. Plano estatístico consistente. Transparência metodológica. Registro correto. Controle de qualidade do trabalho de campo. Supervisão da coleta. Disponibilidade para auditoria. É nesse terreno que se protege a credibilidade das pesquisas e o direito do cidadão à boa informação.
Hoje, o que de fato preocupa é o crescimento de um fenômeno que poderíamos chamar de “indústria da impugnação das pesquisas eleitorais”. A cada novo levantamento registrado, multiplicam-se ações judiciais que, muitas vezes, pouco discutem o efetivo cumprimento das normas legais e muito menos apresentam fundamentos técnicos consistentes sobre metodologia estatística. Em diversas situações, a impressão que fica é a de que o verdadeiro objetivo não é aperfeiçoar a pesquisa, mas impedir sua divulgação quando seus resultados podem vir a desagradar determinados interesses políticos ou até mesmo de captação de recursos financeiros para campanhas.
O problema torna-se ainda mais delicado quando discussões eminentemente técnicas passam a ser conduzidas por quem desconhece profundamente os fundamentos da pesquisa amostral. Questionar metodologia exige conhecimento específico em estatística, amostragem, desenho de pesquisa, inferência probabilística e controle de qualidade. Não basta discordar do resultado para concluir que existe vício metodológico. A divergência política jamais pode substituir o rigor científico.
Isso não significa, evidentemente, que pesquisas estejam imunes ao controle. Muito pelo contrário. Quanto maior a transparência, maior a confiança pública. A Justiça Eleitoral exerce papel indispensável ao exigir o registro prévio das pesquisas, fiscalizar o cumprimento das normas e assegurar que toda a documentação necessária esteja disponível para exame. Da mesma forma, os institutos devem estar permanentemente abertos à auditoria de seus bancos de dados, de seus procedimentos de campo, de seus planos amostrais e de seus registros técnicos. A credibilidade nasce justamente dessa possibilidade de permanente verificação.
Mas uma coisa é controlar a legalidade. Outra, completamente diferente, é transformar divergências metodológicas, muitas vezes desacompanhadas de qualquer demonstração científica, em instrumento para retirar da sociedade o acesso à informação. Quando pedidos de impugnação passam a ser utilizados como estratégia recorrente para esconder resultados desfavoráveis, quem perde não é apenas o instituto de pesquisa. Perde o eleitor. Perde o debate público. Perde a democracia.
As pesquisas de opinião são patrimônio das sociedades democráticas porque permitem compreender o que pensa a população antes que ela se manifeste definitivamente nas urnas. Governos aperfeiçoam políticas públicas a partir delas. Empresas compreendem mercados. Universidades produzem conhecimento. A imprensa informa melhor. E os próprios cidadãos conseguem enxergar, para além de suas bolhas, como diferentes segmentos sociais percebem a realidade.
Democracias maduras não têm medo das pesquisas. Exigem que sejam honestas, transparentes e tecnicamente corretas. Afinal, informação de qualidade nunca foi inimiga da democracia. Pelo contrário. Sempre foi uma de suas maiores garantias.
Quem teme pesquisas, muitas vezes não teme os números. Teme que a sociedade conheça os números. E impedir que um retrato fiel da opinião pública venha a público nunca fortaleceu a democracia. Fortalece apenas a conveniência de quem prefere substituir fatos por narrativas.

Maurício Juvenal é jornalista, mestre em Letras e mestrando em Ciência Política e Relações Internacionais pelo IDP de Brasília. É consultor em análise de dados do Instituto Badra de opinião.

